Desvendando a Marca da Besta

07/08/2011 16:43

I - Introdução

“Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é

o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis.”

(Guilyana/Apocalipse 13:18)

O verso acima tem sido motivo de muita controvérsia ao longo dos séculos. Inúmeras

tentativas mirabolantes já foram feitas para explicá-lo, fazendo os cálculos mais variados,

nos mais diversos idiomas (especialmente o latim).

Porém, não devemos nos esquecer que Yochanan (João) era um judeu, e que portanto sua

forma de pensar era completamente semita. Para entendermos corretamente a mensagem

de Yochanan, é preciso interpretar as Escrituras como um judeu do primeiro século.

II - Análise Textual

Na forma semita de interpretação das Escrituras, utilizando o sistema PaRDeS (vide

artigo sobre como interpretar as Escrituras como um judeu), existem 4 formas de

interpretação: P’shat, Remez, Drash e Sod. Utilizaremos aqui todas essas formas para

podermos entender a mensagem de Yochanan.

III - O Contexto: P’shat e Remez

Evidentemente, pelo contexto de Guilyana (Apocalipse), a besta é associada a um reino

cujo domínio se estende por todo o mundo. Isso fica bastante evidente pela autoridade

sobre o comércio, explicitada no verso 15:

“Foi-lhe concedido também dar fôlego à imagem da besta, para que a imagem da besta

falasse, e fizesse que fossem mortos todos os que não adorassem a imagem da

besta.”(Guilyana/Apocalipse 13:15)

Lembrando que a divisão de capítulos foi feita artificialmente muito tempo depois, e que

muitas vezes uma mudança de capítulos não significa uma mudança de assunto, vemos

que o próprio Yochanan esclarece que Reino é esse, o qual aparece em conexão com a

besta e a sua marca:

“Um segundo anjo o seguiu, dizendo: Caiu, caiu a grande Bavel, que a todas as nações

deu a beber do vinho da ira da sua prostituição. Seguiu-os ainda um terceiro anjo,

dizendo com grande voz: Se alguém adorar a besta, e a sua imagem, e receber o sinal na

fronte, ou na mão,” (Guilyana/Apocalipse 14:8-9)

É quase que consenso entre os estudiosos que a referência a Bavel aqui seja uma forma

indireta que Yochanan tinha de indicar Roma. Isso se torna evidente quando lemos o

relato de Guiliyana (Apocalipse) 18:9-21. Lembremos que o texto foi escrito por

Yochanan para um público do primeiro século. Quem é que esse público identificaria

como o centro do poder (18:9-10), do mercantilismo (18:11-13) e da riqueza (18:14-15)?

E quem perseguia os santos, emissários e profetas de Yeshua (18:20)? A resposta é bem

evidente: o Império Romano!

Reparem ainda que existe uma conexão entre a besta e o seu reino, feita através da

palavra prostituição. No Tanach, essa palavra, quando em conexão com um povo/reino

(especialmente as Casas de Israel), é sempre usada como sinônimo do abandono dos

caminhos e da Torá de YHWH, para cair na rebeldia e na desobediência. Em Hoshea

(Oséias), chegamos a ver que é justamente o espírito de prostituição (ie. negação da Tora)

que impede a Efrayim de fazer teshuvá (vide Hoshea 5:4).

Portanto, o reinado de Bavel (Roma) é um reinado de rebeldia para com a Torá de

YHWH. Mas onde entra a conexão com a besta? Rav. Sha’ul (Paulo) identifica a besta

como sendo o “homem que se opõe à Torá" (anomia), que é justamente o que representa

a prostituição:

“Ninguém de modo algum vos engane; porque isto não acontecerá sem que venha

primeiro a apostasia e seja revelado o homem contrário à Torá, o filho da perdição,” (2

Tess. 2:3)

Portanto, a besta e seu reino têm como propósito deturpar a Torá e os desígnios de

YHWH.

Portanto, em uma análise simples do contexto (P’shat) vemos que a marca da besta tem

conexão com Bavel, o qual implicitamente (Remez) se refere a Roma.

IV - A Guematria: Sod

O texto nos diz para calcularmos o número da besta. Isto pressupõe o uso da guematria,

técnica em que números são associados a palavras, visto que o Alef-Beit (alfabeto

hebraico) possui valores numéricos para cada letra. O grande erro da maioria das pessoas

é tentarem fazer o cálculo com base no alfabeto latino, quando claramente Yochanan

(João), como judeu, utilizou a guematria hebraica.

Já vimos anteriormente que a besta é um ‘homem’, e que há uma conexão evidente com

Roma. Ou seja, um romano. Curiosamente, analisemos a palavra ‘Romano’ no hebraico,

à luz da guematria:

Romiti (romano, em hebraico)

Letra Translit. Valor na Guematria Simples

 Reish 200

 Vav 6

 Mem 40

 Yud 10

 Tav 400

 Yud 10

Total: 666

Aqui temos uma conclusão sólida, não baseada em teorias conspiratórias, mas no próprio

contexto de Guilyana, com base na Guematria (Sod)

V - A Dica de Yochanan: Remez e Sod

Yochanan diz que o número da besta é o número do homem. O que significa isso no

pensamento semita? Dentro do Judaísmo, o número 6 é tido como ‘o número do homem’,

e fica bem claro aqui que é essa a alusão que Yochanan faz.

Mas por que número do homem? E o que significa?

- O número 6 é o número do dia em que o homem foi criado

- Ao homem foram apontados 6 milênios antes da Era Messiânica

- O homem trabalha 6 dias, e depois vem o Shabat

Enfim, o ‘número do homem’ representa algo que é mundano, em oposição a algo que é

santo. Tradicionalmente, o número 6 também é associado à palavra hebraica Sheker

(mentira), pois a soma dos algarismos (desconsiderando dezenas) da palavra sheker é ‘6’.

Letra Translit. Guematria do Primeiro Algarismo

 Shin 3

 Kuf 1

 Reish 2

Total: 6

Portanto, o número 6 é associado àquilo que é mundano ou falso – algo que vem do

homem, ao invés de YHWH. Dentro do contexto de Guilyana (Apocalipse), podemos

dizer que se trata de um engano, uma fabricação humana – em oposição à verdade de

YHWH. A repetição trina do número 6 expressa uma ênfase neste fato, mostrando que é

algo que deve ser levado fortemente em consideração.

VI - Examinando o Tanach: Drash

Um fato que é praticamente ignorado é o de que não é apenas em Guilyana (Apocalipse)

que o número 666 aparece. Na realidade, há dois momentos em que ele aparece no

Tanach (Primeiro Testamento). Lamentavelmente, a maioria dos estudos acerca da marca

desconsideram essa informação, quando na realidade ela é essencial. É inegável que

Yochanan (João) tivesse bom conhecimento do Tanach, e soubesse que os leitores de

Guilyana (Apocalipse) também estariam familiarizados com essas duas passagens. Na

realidade, quando Yochanan cita a necessidade de ‘sabedoria’ para o entendimento do

número da besta, faz uma referência à necessidade de se fazer um drash, buscando as

Escrituras para poder entender as próprias Escrituras.

Para fazermos este drash, mantenhamos em mente a informação de que o número da

besta é ‘o número do homem’, e portanto refere-se a uma construção humana/mundana,

algo mentiroso (sheker) e maligno.

A primeira passagem em que encontramos 666 em em Divrei HaYamim Beit (2

Crônicas) 9:13, que diz:

“Ora, o peso do ouro que se trazia cada ano a Shlomo era de seiscentos e sessenta e seis

talentos.”

Ora, é inevitável estabelecer uma relação entre Shlomo e a besta através do número 666.

Mas que relação seria essa? É simples: Quem foi Shlomo? Foi o Filho de David, herdeiro

do trono e rei de Israel.

Portanto, podemos aqui dizer que o número da besta simboliza que a besta alega ser

como Shlomo, ou seja, ser filho de David, herdeiro do trono, e rei de Israel.

Mantenhamos em mente, porém, que se trata de uma mentira maligna, e não algo de fato

e de direito.

A segunda passagem em que encontramos 666 é em Ezra 2:13 que diz:

“Os filhos de Adonikam, seiscentos e sessenta e seis.”

Aqui, podemos estabelecer um drash conectando os filhos de Adonikam com o número

da besta. Mas, qual a conexão? Ora, os filhos/seguidores da besta são como os filhos de

Adonikam. Mas o que significa Adonikam no hebraico? Adonikam significa literalmente

“Meu Senhor se levantou.” Num nível sod de interpretação, podemos dizer que os filhos

da besta alegam que ele é ‘o senhor que se levantou dos mortos.’

VII - Conclusão

Juntando todos esses elementos, que são puramente bíblicos, acerca do número da besta,

temos uma impressionante revelação acerca de sua identidade: trata-se de uma grande

mentira/engano de um homem romano que alega ser filho de David (messias), rei de

Israel, ressuscitado dentre os mortos e cujos seguidores chamam de Senhor. Ou seja, a

besta é uma mentira criada por homens (e inspirada por Satan, evidentemente, pois ele

deu poder à besta para ser adorada), um homem romano que tenta se fazer passar por

Yeshua.

Se juntarmos a isso o fato de que Rav. Sha’ul (Paulo) o chama de ‘homem que se opõe à

Torᒠ(anomia), então vemos que a besta é o cristo romano, uma falsa versão antinom

ínia do verdadeiro Messias Yeshua.

A marca da besta é portanto algo que identificará justamente esse personagem. Poderá ser

o seu nome, ou algo que o identifique (como a letra ‘Qui’, símbolo da palavra ‘Cristo’),

ou qualquer coisa do gênero. Esse é o ardil de Satan. A única forma de enganar a

humanidade e fazê-la aceitar tal marca é se a marca for um símbolo do falso salvador

romano.

Pare e reflita por um minuto: Quantas pessoas você conhece que alegremente receberiam

‘a marca de Jesus Cristo’ na sua testa ou mão?

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